Entendeis o que vos fiz?

Hoje se inicia o momento mais sublime de toda a Igreja no mundo todo. Uma única missa em três celebrações; ainda mais, em três dias específicos em que devemos nos comportar de maneiras distintas de quaisquer outros dias.

Tal missa se inicia com a celebração Vespertina da Ceia do Senhor, mais conhecida como missa do lava-pés. Adora-se, então, Jesus Eucarístico e faz-se silêncio e jejum até a Celebração da Paixão, às 15 horas da sexta-feira. É um dia de meditação da paixão, dia de reconhecimento das próprias misérias e de se preparar para a alegria da ressurreição, que pela fé o sabemos, virá em breve. Depois desta celebração, mais jejum e silêncio por toda a sexta e o sábado. Nestes dias, a Igreja se coloca ao lado do sepulcro, e espera ansiosa a ressurreição (cf. Missal Romano). Esta Santa Missa em três partes se encerra exatamente com a realização do esperado. Na noite da Vigília Pascal, vigiamos segurando nossas lamparinas acesas à espera do Noivo (cf. Mt 25, 1-13). E Ele vem repleto de glória!

Hoje celebramos duas coisas em especial: as instituições da Eucaristia e do Sacerdócio, da Ordem. No lugar de ler a última ceia de um dos evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) a Igreja prefere a profundidade joanina. Jesus lava os pés dos apóstolos e pergunta: Entendeis o que vos fiz?

A primeira resposta que vem à cabeça é: não Mestre, não entendi. Você me lavou os pés, até aí eu acompanhei, mas para quê?

Porque “se não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13, 8).

Oras, na última ceia o Senhor antecipou sua ação sacerdotal realizada plenamente no Calvário, relato que ouviremos amanhã. Não foi na noite da última ceia que Jesus institui a Eucaristia e o Sacerdócio, mas na Cruz. Durante a última ceia ele antecipa este acontecimento, para orientando os apóstolos a como devem fazer: “Eu vos dei o exemplo para que façais o que vos fiz” (Jo 13, 15) do evangelho de João está intimamente ligado a “fazei isto em minha memória” de Lucas (Lc 22, 19).

São João não precisa relatar a benção da última ceia para demonstrar a instituição da Eucaristia pois, para ele, não há como pensar em Cristo ou em sua paixão sem pensar na Eucaristia. Isto é óbvio para ele: “se não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13, 8) , “quem comer minha carne e beber o meu sangue terá vida eterna” (Jo 6, 54), “alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14). Todo evangelho relatado por São João, bem como todo o livro do Apocalipse por ele escrito, tratam da unidade, do amor, da Paixão, da Ressurreição e Glória, e para João, isto é a liturgia da Palavra e Eucarística.

Entendeis o que vos fiz?

Não Mestre.

“Se eu, que sou o mestre e Senhor, vos lavei os pés, vós também deveis lavar os pés uns dos outros. Eu vos dei o exemplo, para que façais o que eu fiz”. (Jo 13, 14)

Mas o que fizestes?

Se a última ceia é a antecipação do Calvário o que Ele fez foi morrer por nós. Dar sua vida por nós. E este é o servir de Cristo. Ele nos serve, dando por nós sua vida. Mas vejamos: Ele não apenas nos deu sua vida na hora da morte. Ele nos deu sua vida desde o momento de sua concepção: “desde o ventre materno és o meu Deus” (Sl 22 (21), 11), “tu me teceste no seio materno” (Sl 139 (138), 13).

Quando perguntamos para um homem apaixonado por sua esposa se ele daria a vida por ela, a resposta prontamente seria sim. “Morreria por ela”. Mas observem que a pergunta transcende o ato do martírio: você daria a sua vida? Todos os dias você abriria mão das suas escolhas, de seus desejos de seu eu por esta pessoa? Todos os dias?

Pois bem, foi exatamente isso que Cristo fez. João usa o lava-pés precisamente para ilustrar isso. Dar a vida não significa simplesmente morrer. Mas servir em todo o momento. Estar atento em ser o servo e lavar os pés de todos. Acordar de manhã todos os dias e oferecer aquele dia, sem titubear, a Deus, mas principalmente ao próximo.

Entendeis o que vos fiz?

“Se o sabeis e o cumpris, sereis felizes” (Jo 13, 17).

São João é o que mais longamente relata a última ceia. Ela ocupa um papel fundamental no evangelho que escreve; são cinco capítulos dedicados a este momento (Jo 13 – 17).

O relato se inicia com o serviço humilde que realça a humanidade de Jesus, um serviço em que um Deus se faz o menor dos homens: lava os pés dos seus, inclusive de quem o deveria trair. Se Deus serve, nós também devemos servir, pois “o servo não é maior que seu Senhor” (Jo 13, 16).

O relato se encerra com a nobre graça que realça a divindade de Jesus, uma graça que parte do menor dos homens que é, ao mesmo tempo, Deus: faz uma oração pedindo para que o Pai divinize a cada um de nós e nos una com Eles no Amor. Cristo nos concedeu sua glória para que fossemos um com o Pai (cf. Jo 17, 22); continuamos sendo menores que o Senhor, mas por sua grandeza, agora somos um com Ele, pois Jesus dividiu conosco sua glória.

Entendeis o que vos fiz?

Que o Senhor nos conceda a graça de imitarmos a Cristo para que, quando sentados à mesa do banquete, sejamos um com Ele, e limpos por Seu sangue não bebamos nossa própria condenação. Por Cristo Senhor nosso.  Amém

Giovani Domiciano Formenton

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