A taça de Cristo

“Se esta taça não pode passar sem que eu a beba, que se cumpra tua vontade” (Mt 26, 42). E eis que a água se transformou em vinho (cf. Jo 2, 9)… eis que a água da morte do dilúvio se transformou em vinho de vida, núpcias e alegria, através da ação de Cristo. A água que condenava e matava (cf. Gn 7, 17-23; Ex 14, 27-28), torna-se com Cristo a água da vida, que jorra no deserto, que salva e mata a sede de vida (cf. Jo 3, 5; 4, 10. 14; 7, 38 etc.). Eis que a taça de vinho, fruto do sacrifício humano, se transformou em taça de sangue, fruto do sacrifício divino (Mt 26, 27-28). A taça que Cristo bebe não tem o gosto mais doce que o mel (cf Sl 119(118), 103), mas é mais amarga que o fel na boca. E o que Jesus faz com esse amargor? Tem vontade de vomitar? Cuspir? Não. Ele o transforma em cálice da salvação, para que quando nós o bebermos ele esteja mais doce que o mel.

A obediência de Cristo transforma a realidade humana, condenada às águas do dilúvio e à morte, em uma realidade que bebe da misericórdia afável e salvadora do Pai. Não é mais um dilúvio, é uma torrente que nasce no templo e se torna mais profunda quanto mais mergulhamos nela (cf. Ez 47, 1ss). Uma profundidade de amor.

Mas de onde vem aquele amargor da taça de que bebe o Cristo? Vem de vivenciar e experimentar, no espírito, a maneira com que a humanidade trata o Amor.

Tantos na história foram crucificados. Por que os sofrimentos de Cristo foram maiores? Por que sua taça era mais amarga? Pelo número de chibatadas? Certamente não.

O sofrimento do corpo está sempre ligado à realidade da alma. O homem é um ser unificado e não dualizado. A alma e o corpo enfrentam a mesma realidade, estão intimamente ligados. Os sofrimentos que um homem e uma mulher passam em vida são transformados por Deus em bens, para purificar suas almas das manchas de seus pecados (não da culpa, nem da consequência, mas do efeito do pecado na alma). Para a maior parte de nós, o maior sofrimento é suportar a dor física ou emocional. Há os que são santos, que sofrem mais, pois se oferecem para sofrer não só por suas almas, mas também pela alma dos outros. A estes, o câncer dói mais, a gripe maltrata mais, as pequenas coisas atormentam mais do que a pessoas que não oferecem estes sacrifícios por outras. A eles não cabe apenas o sofrimento do corpo, mas o desafio de sorrir sempre, amando sempre, mesmo com todo este sofrimento físico e emocional.

Cristo não morreu para limpar a própria alma, que era pura – a dor não existiria; tampouco morreu em oferta de algumas almas. Sua morte e sofrimento foram para limpar TODAS as almas da humanidade, e não só para apagar as manchas, mas também para apagar a culpa e a consequência do pecado de toda a humanidade – consequência esta que é a própria morte, vencida por Ele. Apenas um Deus feito Homem poderia realizar tal feito. Por isso o cálice amargo não poderia passar sem que Cristo dele bebesse.

Este amargor não vem da necessidade de sofrer sorrindo, mas sim da incrível dor que é saber como a humanidade se afasta de Deus. É a dor de saber como cada ser humano trata o Amor: o desfigura a ponto de não parecer mais o que é, a ponto de não parecer mais amor; desfigura-o a ponto de se tornar um amor egoísta, centrado em si mesmo, desordenado. Desfigura o amor como desfigurou o rosto de Cristo – não parecia mais um homem, e sim um verme (cf. Sl 22(21), 7; Is 52, 14). Tal é o amargor do cálice. Mas este maltrato que a humanidade tem com o Amor não é suficiente para vencer o próprio Amor. No auge de seu sofrimento, vendo e sentindo como o homem trata àquele que mais o ama, Cristo faz sua justiça e decreta sua vitória: “Pai, perdoa-lhes pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34b); e nosso pecado está perdoado.

É a vitória do Amor. Tal vitória não é a da guerra nem a da vingança, mas a do perdão. Nós definitivamente não sabemos o que nosso pecado é capaz de fazer. Nosso pecado é aterrorizante. Violento e assassino. A ofensa que realizamos contra Deus não o fere, mas aniquila nossa própria alma ao nos afastar dEle. E quando um único homem condena a si mesmo, condena toda a humanidade. Ora, a humanidade foi criada para ser una no Amor e é por conta disso que um único homem afeta toda humanidade. Mas na infinita beleza de sua misericórdia e justiça, quis o Pai nos providenciar uma nova maneira de selar nossa união com Ele: o único Homem perfeito nos redimiu… que boa notícia! Espalhemo-la por todas as nações!

Basta aceitarmos a aliança deste cálice, que outrora amargo, é agora mais doce que o mel, e o sacrifício deste único Homem trará a salvação a toda Sua Igreja!

Graças e louvores sejam dados ao Pai, que pela paixão de Seu Filho nos reuniu novamente em sua presença por Seu Espírito Santo!

Giovani Domiciano Formenton

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